quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Resignação

"Cordas do inferno me cingiram, laços de morte me surpreenderam. Na angústia, invoquei ao SENHOR e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz e aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face". David (Salmo 18:5-6).
 
Era por um dia de sábado, ao anoitecer. Havia já algumas horas que o doutor Meir se entretinha na escola pública explicando a Santa Lei a seus inúmeros discípulos. Deleitavam-no aqueles estudos e a religiosa atenção com que suas palavras eram ouvidas.
Sua casa, entretanto, durante aquelas fugidias horas, hospedara o luto e a desesperação. Dois de seus filhos haviam morrido quase de repente e de sua família só a desolada mãe permanecia para chorar aos pés dos dois cadáveres. Infeliz mulher! Petrificada pela dor, contemplava imóvel aqueles dois corpos amados buscando neles, em vão, alguns indícios de vida; e vinha-lhe à mente o pobre marido que dentro em pouco iria defrontar o tremendo espetáculo. O respeito à vontade divina e a caridade de esposa deram à mísera uma grande força de alma. As maternas mãos estenderam um lençol sobre aquele leito de morte onde os filhos amados repousavam. Cumprindo o piedoso mister, a triste mãe passou-se ao quarto vizinho à espera do marido.
A noite descera lentamente. Já estrelas sem conta luziluziam pelas alturas sem fim. Volveu a casa o doutor e apenas transposta a soleira indagou, da sua esposa, um tanto perturbado:
- E os filhos?
- Terão ido à escola - respondeu a mulher com voz trêmula e sumida, fitando o céu, evitando o olhar do marido.
- Parece-me que não os vi entre os alunos.
A mulher, sem lhe responder, apresentava-lhe o vinho e o círio para o Avdalá, com que implorar as bênçãos do céu para a nova semana.
Cumpriu o doutor o religioso ato e com crescente ânsia bradou:
- Mas, e os filhos, mulher?
- Saíram talvez para alguma incumbência familiar.
Isto dizendo punha diante do marido, há longo tempo em jejum, umas fatias de pão.
Provou o doutor um pedacinho e tendo dado graças a Deus, a quem devemos todos os bens terrenos, exclamou:
- Como tardam hoje os nossos filhos! É certo que não sabes mesmo nada, ó esposa minha? Porque me pareces tão triste?
- Eu, meu esposo, preciso muito de um conselho teu.
- Que é?
- Ontem um amigo nosso me procurou e deixou sob minha guarda algumas jóias. Vem ele agora reclamá-las. Ai de mim! Não contava que viesse tão cedo. Devo restituí-las?
- Ó minha esposa! Essa dúvida é pecaminosa!
- Mas já me afizera tanto àquelas jóias!
- Não te pertenciam.
- Mas eu queria-lhes tanto bem... Talvez tu também...
- Ó mulher! - exclamou atônito o marido que começava a pensar, com temor, nalguma coisa, estranha e terrível. - Que dúvidas! Que pensamentos! Sonegar um depósito, coisa sagrada!
- É isso mesmo - balbuciava chorosa a mulher. - Muito preciso de teu auxílio para fazer esta dolorosa restituição. Vem ver as jóias depositadas.
E as suas mãos geladas tomaram das mãos do atônito marido e conduziram-no a câmara nupcial e ergueram as franjas do lençol fúnebre.
- Aqui estão as jóias. Reclamou-as Deus!
Diante daquela visão o pobre pai prorrompeu em grandíssimo pranto, e exclamou golpeado pela dor:
- Ó filhos meus, filhos de minha alma, doçura da minha vida, luz dos meus olhos, ó meus filhos!
- Esposo meu. Não disseste há pouco que é forçoso restituir o depósito quando o reclama o seu dono legítimo?
Com os olhos marejados de lágrimas, o sábio fitou a esposa cheio de admiração e de inefável ternura.
- Ó meu Deus – suspirou, - posso eu balbuciar alguma queixa contra a Tua vontade? Deste-me, para escudo e consolo de minha vida uma esposa religiosa e santa!
E os dois infelizes prostraram-se a um só tempo e por entre lágrimas repetiram as santas palavras de Jó:
- "Deus deu, Deus tirou. Bendito seja o seu santo nome!".
 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Livro em Branco

Andando um dia o grande Al Manzor, califa de Córdova, disfarçado em mercador, a correr as ruas dessa cidade com o intuito de observar, completamente despercebido, alguns de seus aspectos, deparou-se-lhe um indivíduo que, pelo trajar exótico e maneiras extravagantes, despertava a atenção dos transeuntes, reunidos alvoroçados em torno dele.
- Conheces aquele homem? - perguntou o sultão ao vizir que o acompanhara, oculto, também, em cuidadoso disfarce.
- Senhor - respondeu o interpelado – Aquele muçulmano que ali está no meio daquele grupo, a contar histórias maravilhosas e a relatar velhos sucessos, chama-se Banassafar e, embora chegado há pouco tempo, já se tornou figura popular nestes arredores. Gaba-se de possuir invejável saber - e afirma que conhece todos os livros existentes no mundo. Querem alguns, porém, que ele não passe de um embusteiro muito hábil que merecia ser publicamente desmascarado!
- Por Maomé! - exclamou o califa. - Vou encarregar-me disto e hei de castigar esse aventureiro audacioso!
Determinou assim o sultão que o pseudo-sábio fosse levado a palácio e em presença dos nobres, ulemás e poetas da corte perguntou-lhe:
- É verdade que conheces todos os livros até hoje escritos não só no Islã, como no resto do mundo?
O arguto forasteiro, cuja audácia e sagacidade jamais o deixaram em situação embaraçosa, declarou peremptoriamente que não só conhecia como também já havia comentado todos os livros até então vindos a lume.
Tomou, então, o califa de um livro em branco, que ardilosamente mandara compor para ilaquear o aventureiro e perguntou-lhe:
- Dize-me, então, ó ilustre muçulmano, qual é a tua opinião sobre esta obra que tantas gerações têm visto?
O livro que Almanzor apresentou ao vaidoso Benassafar trazia luxuosa encadernação e em sua folha de rosto se lia gravado em caracteres dourados o seguinte título: "Últimos pensamentos engenhosos de Abul-Sanari".
Apenas lida a curiosa epígrafe, respondeu Benassafar:
- Sobejas vezes reli já esta obra admirável, glorioso califa!
Com grande espanto de todos os presentes - sabiam tratar-se de um livro em branco - o miraculoso homem prosseguiu:
- Posso assegurar-vos que este livro é magnífico. A ninguém faz mal; a todos é benéfico. Julgo-o superior às demais obras desse autor e - segundo os grandes críticos - é preferível às produções de Abenderrach. Em poder de um ignorante não têm as suas páginas valor algum; postas, porém, nas mãos de um letrado podem tornar-se mais preciosas do que o anel do grande Salomão! 
Ao ouvir semelhante afirmativa, não se conteve o califa e exclamou irado:
Não passas de um vil mentiroso! O livro sobre o qual tanta coisa disseste tem todas as folhas em branco.
Benassafar, com enorme pasmo dos presentes, não deixou transparecer o mais leve indício de perturbação!  O rancor do soberano, capaz de gelar o sangue nas veias do mais atrevido; a sua declaração, perigosa trama para o mais hábil - não tolheram sequer pequena parcela de sua muçulmânica serenidade. E disse:
- Senhor! Que Allah, o Exaltado, vos conserve até à consumação do século! Peço-vos, humildemente perdão. A resposta por mim formulada é exata e perfeita. Refere-se precisamente a um livro em branco. Que disse eu? Que esse livro não faz mal a ninguém e que a todos só pode fazer bem. É exatamente o caso de um livro em branco que, longe de ser nocivo, só pode ter utilidade para quem o vender e apurar no negócio boa quantia. Julguei-o superior às outras obras de Abul-Sanari. Esse homem não passa de um humilde obreiro, e este livro é, assim, a melhor das "obras" que ele tem produzido. Disse também que era preferível aos trabalhos de Abenderrach, o mísero idólatra que teve a audácia de criticar alguns versículos do Alcorão! Parece-me que um livro em branco é preferível sempre àquele que contenha conceitos aleivosos ao Livro de Allah! Afirmei, por fim, que o livro, posto nas mãos de um ignorante, não teria valor, mas que entregue a um sábio poderia tornar-se uma preciosidade. Para isto seria bastante que este imprimisse nas páginas em branco pensamento morais, versos delicados e ensinamentos úteis!
Almanzor viu-se obrigado a reconhecer que o inteligente Benassafar, vencendo-o naquela prova, fora mais hábil e mais esperto do que ele. Além disto, tendo concluído que o homem não passava de um sofista tão ardiloso quanto inofensivo, que andava a distrair o povo com suas declarações aparentemente fantásticas, mandou dar-lhe um traje de honra e deixou-o em paz, com boa recompensa, pelos caminhos de Allah.

História Sem Palavras

Houve na Pérsia - contam-nos os velhos escritores do Islã - um rei poderoso e rico chamado Dhomahir que, pelas suas extravagantes manias e caprichos intoleráveis, conquistou triste celebridade na história de seu glorioso país.
Na corte desse monarca vivia um poeta chamado Clarik, moço de grande talento.
Certo dia o famigerado tirano (Allah se compadeça dele) mandou vir à sua presença o jovem poeta e, com o maldoso intuito de deixá-lo em apuros, disse-lhe:
- Quero que me contes agora, ó poeta! - a história completa do meu reinado sem pronunciar, porém, uma única palavra!
O grande salão real, que a todos deslumbrava pelo inexcedível luxo das tapeçarias e troféus, achava-se naquele momento repleto de nobres, altos dignitários da Corte e inúmeros convidados. Não foi difícil ao inteligente Clarik - graças ao seu esclarecido espírito - perceber logo que aquela intimação absurda fora sugerida perfidamente por um dos muitos cortesãos invejosos que rodeavam habitualmente o soberano.
- Querem divertir-se à minha custa! - pensou. - Aos chacais invejosos vou mostrar que sei vencer as mais intrincadas dificuldades da vida!
E Clarik, o poeta, sem deixar transparecer a menor inquietação, inclinou-se respeitoso diante do monarca e assim falou:
- A ordem de Vossa Majestade, ó rei dos reis! - está diante dos meus olhos e do meu coração! Vou contar a história de seu glorioso reinado sem pronunciar uma única palavra.
Fez-se no grande salão real profundo silêncio. Clarik aproximou-se com passos vagarosos da escadaria de mármore vermelho que conduzia ao deslumbrante trono em que tinha assento o rei Dhomahir.
Todos os olhares se voltaram ansiosos para o poeta. Como iria atender àquele descabido capricho do rei?
Na sua imperturbável calma, depois de inclinar-se três vezes diante do poderoso senhor, o poeta começou a balar como uma ovelha:
- Mé! Mé! Mé!
Em seguida entrou a ladrar como um cão:
- Au! Au! Au!
Sem dar atenção ao grande espanto do rei, nem ao pasmo inconcebível que dominava os cortesãos o poeta passou a bramar como o tigre e a rugir como o leão.
- Que é isto, ó insensato! - gritou colérico o rei. - Queres pilheriar comigo? Que pretendes significar com esses rugidos e latidos?
- Devo confessar - ó rei magnânimo! (que Allah abençoe os cabelos de Vossa Majestade) que foi a única maneira que encontrei para contar, sem pronunciar palavra, a história completa de seu glorioso reinado! É, na verdade, muito simples e muito clara a significação das diversas vozes com que acabo de ferir os seus régios ouvidos.
E, ante a mal contida admiração dos vizires e nobres, o poeta assim continuou:
- Logo que subiu ao trono, mostrou-se Vossa Majestade bondoso como uma ovelha. Esse fato exprimi-o procurando imitar os balidos desse animal. Nos primeiros tempos, notando naturalmente Vossa Majestade que ainda não granjeara a confiança completa de seus súditos, resolveu conquistá-la. Com esse intuito Vossa Majestade deu provas cabais de que era um servo cumpridor das leis e dos princípios religiosos do país! Vossa Majestade foi de uma fidelidade constante para com o povo e para com Deus! E o símbolo da fidelidade é o cão. Quando porém os inimigos atacaram o país mostrou-se Vossa Majestade valente e audacioso. Não procurava o combate, mas também não fugia dele! Vossa Majestade era como o tigre dos juncais que ataca, rasga, estripa e faz rolar moribundo o elefante enfurecido! E para lembrar esse trecho da sua história eu imitei a voz do ágil felino. Depois de triunfar nessa gloriosa campanha Vossa Majestade revelou possuir uma energia leonina. Fez passar os prisioneiros a fio de espada, escravizou o povo e reduziu a escombros as cidades conquistadas! Vossa Majestade esmagou o inimigo como faz o leão bravio ao caçador que errou o alvo de seu peito! Eis, pois, ó Rei afortunado! - a história completa de seu brilhante reinado!
Achou o rei Dhomahir muita graça na lembrança original do espirituoso poeta e deu-lhe uma bela recompensa - o que ainda mais irritou os invejosos da corte.

O Santo Ladrão

Certa vez, no interior da Índia, um ladrão aproveitando-se da escuridão da noite, tentou assaltar a casa de um rico senhor.
Sentindo-se percebido, fugiu para um bosque vizinho e ficou escondido sob uma árvore, de onde via de quando em vez avermelhados clarões que surgiam nas trevas. Eram os criados do ricaço que o procuravam com grandes tochas, pesquisando todos os recantos do bosque.
- Estou perdido - pensou. - Os malditos servos fatalmente virão encontrar-me aqui.
E sem perda de tempo resolveu arranjar um disfarce qualquer. Sujou o rosto de terra, rasgou as vestes e, ajoelhando-se no chão, fingia um santo faquir absorvido em profunda meditação.
Os seus perseguidores não reconheceram naquele humilde penitente o audacioso ladrão que pouco antes havia tentado violar a residência do rico patrão.
E pressurosos levaram a notícia ao dono do palácio:
- Não encontramos as pegadas do ladrão, e o único ser vivo que conseguimos descobrir foi um santo que orava sob uma árvore!
- Um santo em minhas terras! - bradou entusiasmado o proprietário. - Que felicidade!
E foi sem demora, acompanhado da esposa e filhos, levar frutas e doces ao falso anacoreta.
A notícia correu célere pela cidade. Na manhã seguinte crentes, em multidão, foram admirar o extraordinário faquir que vivia no bosque sob uma árvore, com o rosto sujo de terra e as vestes em frangalhos. Deram-lhe muito dinheiro e valiosos presentes.
Ao ser informado da presença do novo santo, o príncipe Nahor, que governava a região, assaltado por súbita e devota curiosidade, ordenou que seus oficiais fossem ao bosque e obtivessem do venerando penitente permissão para conduzi-lo ao palácio.
E num carro dourado, à frente de grande cortejo, o audacioso aventureiro foi levado à suntuosa morada do príncipe Nahor. Pelas ruas, quando o préstito passava, os homens ajoelhavam-se e beijavam fervorosos a terra entre as mãos.
O príncipe recebeu o novo santo com o maior respeito e solenidade, beijando-lhe a ponta esfarrapada da túnica.
- Santo faquir! - exclamou. - Só hoje chegou ao meu conhecimento a vossa vida exemplar e de orações e penitências. Desejo que demonstreis aos meus queridos súditos a grandeza de vosso poder milagroso. Assim é que vos peço realizeis em minha presença e na dos ilustres Brâmanes milagre prodigioso que robusteça ainda mais a nossa fé e confiança!
Respondeu o falso anacoreta:
- Ó Príncipe! Bem sei que sois generoso e bom, mas só poderei realizar o milagre que acabais de ordenar se prometerdes conservar-me sob vosso amparo e proteção! Receio que contra mim se assanhem os ódios exaltados dos incrédulos!
- Asseguro-vos, sob palavra - atalhou o príncipe - que estais sob a minha proteção e ninguém ousará o menor movimento contra a vossa pessoa. Aquele que tentar contra vós qualquer ofensa ou vingança será castigado impiedosamente.
- As vossas palavras - declarou o ladrão - traduzem a maior garantia que um ser humano pode desejar.
E acrescentou:
- Vou realizar diante de vossos olhos dois espantosos milagres que deslumbrarão os crentes e humilhados os pecadores.
E com o maior cinismo narrou ao príncipe as peripécias por que havia passado, desde a sua tentativa de assalto à casa do ricaço até sua chegada a palácio.
- Eis, senhor - concluiu - os dois milagres que prometi.
- Que milagres? - retorquiu o príncipe, tomado de incontido rancor. - Não vejo milagre algum, ó cão miserável!
- O primeiro milagre, ó príncipe generoso, foi o seguinte: com um punhado de areia e um pouco de cinza, transformei um ladrão num venerado e virtuoso santo. Depois, narrando a verdade em vossa presença, fiz com que o venerável santo se transformasse, novamente, num ladrão abjeto. Penso que essas extraordinárias metamorfoses que realizei foram altamente milagrosas!
Percebeu o arrebatado príncipe que se achava impossibilitado de castigar o inteligente ladrão, pois havia empenhado a sua palavra, e o aventureiro nada poderia sofrer. Dirigindo-se ao mais sábio dos seus conselheiros, perguntou-lhe:
- Qual a conclusão moral, ó brâmane! - que poderíamos tirar dessa história? Não resultará dela algum ensinamento útil para o meu povo?
O digno sacerdote hindu respondeu:
- A aventura ocorrida com esse aventureiro que faz jus, aliás, a uma boa recompensa, subministra-nos vários pensamentos e ensinamentos morais. Penso, entretanto, que será mais interessante deixar o público por si mesmo tirar do caso as conclusões que achar mais acertadas.
E, nesse sentido, o príncipe lavrou uma sentença que se tornou célebre.

A Profecia do Dervixe

Conta-se que durante a revolução que agitou a velha cidade de Kabul, nos últimos meses do infeliz reinado do emir Abdallah El-Ghazi, apelidado "O Falso", ocorreu um episódio que aparece, aliás, narrado com notável brilhantismo, num dos mais belos poemas do inesquecível poeta muçulmano Abul Fares Ilfichtali.
Na primeira noite sem lua do mês de djomada, os rebeldes chefiados pelo valente Asakir resolveram assaltar de surpresa o palácio real. O ataque foi iniciado simultaneamente pelo rio, junto à ponte de Khalfa, e pela praça de Charikar, que ficou, depois de sucessivos combates, reduzida a um montão de escombros.
Poderosa guarda de mercenários curdos, assoldadados pelo déspota, resistiu até às primeiras horas do dia ao ímpeto dos assaltantes. Já mui alto ia o sol no céu da Pérsia, quando os infatigáveis combatentes de Asakir conseguiram, a golpe de audácia, esmagar os defensores e transpor os umbrais de mármore do palácio real. E sempre combatendo, de sala em sala, pelas ricas escadarias suntuosos aposentos, pisando cadáveres e saltando de kandjar em punho, sobre os que os enfrentavam, chegaram à deslumbrante sala do trono, onde se entrincheirara o último núcleo de resistência.
Foi no rico salão do emir - que os nobre curdos denominavam divã real - que mais acendeu a luta. Conta-se que o chão ficou atapetado de cadáveres e de guerreiros agonizantes.
Os rebeldes, obtida a vitória, passaram à triste faina de socorrer os companheiros feridos. Entre as numerosas vítimas encontraram um jovem de quinze anos que arquejava em meio de uma poça de sangue, o peito varado por uma lança.
Um dos soldados de Asakir, tocado pelo infortúnio do nobre menino, tomou-o nos braços, e, como não encontrasse onde acomodá-lo, deitou-o cuidadosamente no riquíssimo trono de ouro e púrpura. E ali, qual um formoso príncipe da lenda, no trono mais rico do Oriente, o moço guerreiro de Kabul deixou pender a cabeça sobre o peito ensangüentado e cerrou para sempre os olhos negros e serenos.
Asakir, o chefe, que casualmente passava naquele momento pelo divã real, ao ver o cadáver do malfadado jovem deitado no trono dos xás, interpelou os soldados que fitavam penalizados aquela bela esperança desfeita:
- Quem é esse menino? Como veio ele parar aqui?
- Senhor - respondeu um dos guerreiros. - Conheço, infelizmente, esse pobre adolescente. É o filho único do velho Harim Saad, rico mercador do bairro de Bali-Hassa. Por uma temeridade inqualificável ele entrou no palácio, juntamente com as nossas tropas, durante o assalto.
Exclamou Asakir:
- Que Allah, o único, castigue, sem compaixão, o pai inconsciente, que deixa um filho andar à solta pela cidade num dia em que a guerra semeia desenfreadamente a morte e o infortúnio! - Procura o velho Harim Saad! – ordenou. - Quero que o insensato, para seu castigo, venha buscar aqui o corpo desse desditoso e belo rapazinho!
O curdo que recebera a ordem do chefe, partiu sem demora para o bairro de Bali-Hassa. Lá chegando, correu à loja do velho Harim Saad a cuja porta o encontrou a fumar descuidado o seu narguilé de prata.
- Sabes onde está teu filho, ó insensato? - perguntou o soldado ao chegar.
- Sei, sim - respondeu-lhe o mercador. - Meu filho foi assistir ao assalto dos revoltosos ao palácio do real.
- E não receias que aconteça alguma desgraça ao pobre menino?
- Desgraça ao valente Ben-Harim? De modo nenhum - afirmou o ancião. - Tenho motivos para nada temer em relação à sorte de meu filho!
E, esclarecendo sua estranha atitude com a revelação de um segredo que lhe parecia muito caro, o velho Harim Saad ajuntou:
- Há doze anos, quando estive em Bagdá, consultei um sábio dervixe que se achava na cidade dos califas e pedi-lhe que lesse na areia sagrada o futuro daquele que seria o herdeiro único de meus bens. E as palavras desse santo muçulmano, tranqüilizaram para sempre o meu coração de pai. Desse dia em diante nada mais receio, nem poderia recear, pela sorte de meu estremecido filho!
Harim Saad erguendo-se orgulhoso, concluiu com voz calma e segura:
- E sabes, meu amigo, o que disse o astrólogo de Bagdá? Apenas estas palavras: "O teu filho, ó mercador, há de morrer num trono!"

A Sopa de Pedra

Era uma vez um viajante que andava de país em país, de terra em terra. Um dia quando estava de passagem por uma pequena aldeia reparou que a sua comida tinha acabado, e já estava ficando com muita fome.
Foi andando de um lado para o outro a pensar numa forma de arranjar comida. Tinha muita vergonha de pedir, mas parecia que daquela vez não tinha outro jeito.
Enquanto ia andando, deu um pontapé numa pequena pedra que estava no chão; era uma pedra muito lisa e bonita, foi então que teve uma idéia para conseguir almoçar sem sentir tanta vergonha.
Bateu à porta de uma casa, que parecia ser de um grande agricultor da região.
Quando o dono da casa abriu a porta o viajante disse-lhe:
– Bom dia senhor, eu sou viajante e trago comigo uma pedra mágica capaz de fazer a melhor sopa do mundo, quer provar?
Ao dizer isto, retirou do bolso uma pedra muito lisa e redonda. Era parecida com outras que o agricultor conhecia mas, como gostava muito de sopa, decidiu provar a tal melhor sopa do mundo.
O viajante entrou e pediu uma panela grande com água e um pouco de sal; colocaram a panela no fogo e a pedra lá dentro. Quando a água começou a ferver o viajante provou e disse:
– Está quase pronta, mas ficará ainda melhor se lhe pusermos umas batatas.
– Oh homem! Não seja por isso, eu sou um grande agricultor desta região, batatas é coisa que não me falta.
– Obrigado, assim a sopa vai ficar muito melhor.
Passado mais algum tempo voltou a provar.
– Está quase..., mas ficava ainda melhor se lhe pusermos umas cenouras.
O agricultor lá foi buscar as melhores cenouras que tinha em casa.
Após provar várias vezes o viajante foi pedindo outros vegetais, como couve, cebola, feijão, entre outros. Quando a sopa já estava rica em vegetais, o viajante disse:
– Caro amigo, a sopa está ficando uma delícia!
O agricultor mal podia esperar para provar a sopa - coisa que ele adora.
O viajante após provar mais uma vez pediu:
– Oh amigo esta sopa ficava ainda melhor se lhe pusermos um pouco de carne de porco, tem ai alguma coisa? Chouriço, por exemplo.
– Já lhe disse que sou agricultor, coisas dessas não faltam cá em casa.
Mais uma vez foram colocando algumas carnes na sopa.
Provou mais uma vez e disse com um grande sorriso:
– Está pronta!!!
– Já não era sem tempo, vamos lá provar essa sopa
O viajante serviu a sopa para os dois. Depois de a provar, o agricultor exclamou:
– Tinha razão, é mesmo a melhor sopa que já comi até hoje, essa sua pedra é realmente mágica. Não quer vendê-la?
– Não está à venda, é muito valiosa para mim, foi-me oferecida por um mago de um país distante.
– Muito bem, obrigado do mesmo jeito por me ter deixado provar esta sopa.
– Obrigado eu.
Despediram-se. O viajante continuou a sua viagem por outras terras, utilizou várias vezes a sua pedra mágica e assim conseguiu comer sem ter vergonha de pedir e foi desta forma que a receita da sopa de pedra foi passando de terra em terra e hoje ainda a podemos provar em vários locais, com diferentes receitas.

O Plantador de Espinhos

Caminhava o xeque Omar Saleque com sua pomposa comitiva pela estrada de Bagdá, quando avistou um homem que, indiferente ao calor torturante, empenhava-se em revolver a terra ingrata e seca.
Só um louco poderia pensar em cultivar aquele solo arenoso onde mal podiam medrar as plantas venenosas do deserto.
Aproximou-se o xeque do desconhecido e em tom amistoso perguntou-lhe:
- Por Allah, meu amigo! Que pretendes plantar nestas paragens agrestes que a maldição do céu tornou mais estéril que os vidros de um espelho chinês?
- Deliberei fazer aqui, ó xeque! - respondeu o interpelado - uma plantação de espinhos.
Dela espero tirar os recursos necessários para viver!
- Infeliz! - murmurou penalizado o xeque. - O Destino roubou-te por certo a luz da razão. Só a um demente poderia ocorrer tão disparatada idéia.
Um episódio insignificante serve muitas vezes para quebrar a monotonia de uma longa viagem. Disposto, pois a divertir-se um pouco com aquele maníaco, o xeque perguntou-lhe afetando viva curiosidade:
- Qual é o teu plano para o futuro, ó plantador de espinhos? Que preço esperas alcançar para o teu rico produto nos mercados de Basra?
- Não pretendo vender espinhos - retorquiu o árabe. - A minha idéia é muito simples e razoável. Vou expô-la em poucas palavras.
E depois de pequena pausa começou:
- Por esta estrada passa de quando em vez uma caravana. Não é verdade?
- Decerto que sim - concordou o xeque. - Duas ou três vezes por ano esta estrada é percorrida pelas caravanas de Basra ou Mossul!
- E é bem possível! - continuou o homem - que uma dessas caravanas transporte grande carregamento de algodão.
- Sim, é possível. De quando em vez toma o rumo de Bagdá uma caravana que traz algodão do Egito.
- É provável, também, que nessa caravana, que conduz algodão, haja um camelo tonto.
- Sim, sim, é provável! - assentiu o xeque. - Em meio de numerosa caravana lá vem, por vezes, um camelo tonto. É raro, mas acontece.
- É bem possível, portanto, que esse camelo tonto, ao passar junto desses pés de espinho, escorregue e caia. Ao tombar o animal pode dar-se que se rompa o fardo de algodão. Aberto o fardo e derramado o algodão, é de esperar que muitos pedaços de algodão fiquem presos aos espinhos. Retiro esse algodão e vou vendê-lo no mercado, obtendo assim algum dinheiro!
O xeque Omar riu-se estrepitosamente ao ouvir o relato daquele imaginoso plano e nessa expansão de alegria foi imitado pelos amigos que o rodeavam.
- Mac Allah! - exclamou o xeque, - a dúvida substituiu-se em meu espírito pela mais robusta certeza! Ninguém me convenceria agora de que não passas, ó plantador, de um triste louco. Procuras assentar o teu futuro numa série de eventualidades bem mais que improváveis: firmas tuas esperanças em vários acasos sucessivos, para os quais não há, dentro do razoável, possibilidade alguma de realização. Quanta coisa imaginaste! A caravana que passa (coisa rara), o algodão, o camelo tonto, a queda do camelo, dando-se precisamente neste lugar, o fardo espedaçado, o algodão nos espinhos... Ah! Ah! Ah! - É de fazer rir o mais ingênuo beduíno do deserto!
Nesse momento, um dos companheiros de Omar disse-lhe, em voz baixa, muito sério:
- Esse homem prestou-nos, a meu ver, ó xeque!, um inestimável serviço. A nossa viagem para a gloriosa Bagdá apresentava-se até agora monótona e sem interesse; esse episódio do plantador de espinhos é originalíssimo e poderá ser contado ao nosso bondoso soberano, Harun-al-Raschid, Príncipe dos Crentes (Que Allah o conserve!). Teremos, destarte, oportunidade de agradar o grande Emir e dele obter os favores que pretendemos.
- Tens razão, meu amigo - concordou o xeque - esta aventura é digna de ser contada ao generoso Harum-Al-Raschid, Comendador dos Crentes. Vou dar a êste pobre homem valiosa recompensa.
E, tirando de sua bolsa um punhado de moedas, ofereceu-as ao singular plantador de espinhos.
Com grande surpresa viram todos, porém, o desconhecido recusar o ouro do xeque. E justificou de modo decisivo a sua estranha atitude:
- Jurei que só ganharia dinheiro com o algodão dos espinhos. Vejo-me, pois, impedido de aceitar o auxílio dos viajantes ricos e generosos!
Ao chegar a Bagdá o xeque Omar foi recebido pelo califa, e em palestra contou ao poderoso soberano o episódio ocorrido na estrada com o singular plantador do deserto, que recusava até o ouro que lhe ofereciam, na esperança vã de ganhar dinheiro com o algodão preso aos espinhos e fisgado da carga de um camelo tonto que viria, talvez, numa imaginária caravana de mercadores.
- Preciso falar a esse homem! - declarou logo o califa. E mandou imediatamente que os seus oficiais trouxessem à sua presença o visionário da estrada.
Conduzido ao palácio real, o estranho "agricultor" foi interrogado pelo sultão, que ficara desde logo tomado de viva curiosidade pelo caso.
O plantador de espinhos, depois de beijar respeitosamente a terra entre as mãos, iniciou o seguinte relato:
- O meu nome, ó Comendador dos Crentes! é Ahmed Faride. A minha vida tem sido até agora uma série de lamentáveis fracassos, porque mal dou início a uma tarefa, deixo-a de lado para retomar outro trabalho. Não consegui, por amor de meu gênio inconstante, finalizar uma única das obras que encetei. Para corrigir-me desse grave defeito deliberei pôr ombros a uma empreitada quase impossível e levá-la sem desfalecimentos até completa realização. Imaginei para tal fim essa extravagante plantação de espinhos, que o maior utopista repeliria sem hesitar. Estou agora completamente mudado; sou de uma constância inabalável nos meus propósitos e empreendimentos.
- Por Allah! - exclamou o califa. - És o homem que eu procurava. Vou nomear-te prefeito desta cidade, e estou certo de que farás uma administração admirável. A meu ver os grandes males do povo resultam das obras úteis e acertadas que os governos começam, mas não acabam. Que gravesmeu ver os grandes males do povo resultam das obras úteis e acertadas que os governos começam, mas não acabam. Que graves prejuízos não advém desses erros administrativos! Considero verdadeiros criminosos aqueles que não levam a bom termo os empreendimentos iniciados, às vezes, sob os melhores auspícios. Espero pois, Ahmede Faridel, que essa plantação de espinhos seja a tua última obra inacabada!
E assim aconteceu, realmente. Ahmede Faride, desligado do juramento anterior, foi nomeado prefeito de Bagdá e durante vários anos mostrou-se um administrador digno dos maiores encômios. Obra reputada necessária e útil, uma vez iniciada, era fatalmente levada até ao fim. E o seu nome, como sinal de gratidão do povo, foi gravado em letras de ouro junto ao "mirab" da mesquita mais rica do Islã.