terça-feira, 4 de outubro de 2011

As Sentenças do Sultão

Segundo as sábias investigações feitas pelos doutores do Islã ficou demonstrado que o sultão Al-Mamum, de Bagdá, aprendeu com um dervixe hindu que viveu anos em sua corte a árdua e delicada tarefa de julgar.
As sentenças de Al-Mamum tornaram-se famosas, e algumas delas servem até hoje de modelo aos grandes jurisconsultos.
Conta-se que certa vez apresentaram-se no divã das audiências públicas três muçulmanos. O sultão, que se fazia acompanhar de seus vizires e ulemás, interrogou-os com paciência e bondade.
Disse o primeiro:
- A situação em que me encontro, ó Rei do Tempo!, é assaz deplorável. Tenho um filho de dezoito anos que se fez verdadeiro tormento para a minha vida. É rebelde e desobediente. Foge da escola, detesta o trabalho e alia-se a péssimos amigos com os quais pratica as maiores tropelias e arruaças. Raro é o dia em que não chega ao meu conhecimento uma proeza pouco digna praticada pelo incorrigível rapaz. Sinto-me envergonhado ao sair à rua, pois não há no bairro em que moramos uma única pessoa que não conheça o proceder indigno de meu filho. Venho pedir, pois, o vosso precioso auxílio, ó Rei, pois sinto-me sem força para trazer o desajuizado jovem à vida sã e honesta.
O segundo árabe, depois de beijar humilde a terra entre as mãos, assim falou ao sultão:
- "Iaich raçak ia malek egxman"!  (Deus conserve a vida preciosa do Rei!) Casei-me, Senhor, há onze anos com uma moça de Basra. A princípio minha vida correu tranqüila; poucos meses, porém, depois de nosso casamento, minha esposa revelou possuir um gênio terrível. É intrigante e má. Por sua causa já briguei várias vezes com meus irmãos e cheguei a esquecer o respeito que devo a meu velho pai. A existência tornou-se para mim verdadeiro inferno. Compelida pelo ciúme mórbido que a domina, minha mulher tece calúnias ignóbeis, com que tenta ferir as pessoas que me são caras. Desorientado pelo infortúnio resolvi apelar para o vosso auxilio, ó Comendador dos Crentes!, pois sinto-me sem energias para obrigar minha mulher a ser cordata e simples.
O terceiro muçulmano, convidado a falar, narrou o seguinte:
- Chamo-me Hassan e exerci durante vários anos a profissão de pasteleiro. Graças aos longos sacrifícios que fiz, consegui reunir pequena economia; comprei um terreno e nele construí uma casa modesta para morar. Veio, entretanto, residir a meu lado um homem que se tornou para minha família um tormento contínuo. Esse vizinho tem no corpo a alma de Cheitã, o gênio do mal. Solta os animais na minha horta, rouba frutos do meu pomar, atira os despejos domésticos para o portão do meu jardim. Não contente com isso reúne em sua casa uma súcia de desclassificados e promove festas barulhentas que terminam, quase sempre, em brigas e distúrbios. Não posso viver tranqüilo e prosperar tendo ao lado semelhante vizinho. Que fazer? Resolvi, pois, apelar para o vosso auxílio, já que não me sinto com forças para abandonar a casa adquirida com penoso trabalho.
Depois de ouvir as declarações dos três muçulmanos, o sultão Al-Mamum ergueu-se e declarou solene:
- Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! A minha sentença sobre os três casos que acabo de ouvir é a seguinte: o pai que acusou o filho de desobediente e arruaceiro receberá dezoito palmatoadas na mão esquerda; o marido que se sente infeliz com a má esposa, será castigado com onze bastonadas na sola dos pés e o infeliz camponês perseguido pelo vizinho maldoso terá uma indenização de cento e cinqüenta sequins de ouro!
Essa original sentença do grande califa causou profunda surpresa aos cheques e cortesãos. O grão-vizir, preocupado em esclarecer as dúvidas que o perturbavam, dirigiu-se ao sultão e disse-lhe respeitoso:
- Senhor! Certo estou de que a sentença que acabais de proferir foi inspirada pelo mais alto e mais puro espírito de justiça. A minha inteligência, num primeiro exame, não alcança, porém, a interpretação clara e precisa que sirva para explicar vossa perfeita e sábia decisão.
Al-Mamum, como já disse, aprendera a julgar com um dervixe hindu e não deixava, quando interrogado, de fundamentar com precisão e clareza suas sentenças. O poderoso califa disse, pois, ao grão-vizir:
- O pai foi castigado por não ter sabido educar e corrigir o menino, que desde cedo revelara possuir gênio rebelde. A mão que não soube em tempo oportuno castigar o filho malcriado, é agora castigada com palmatoadas. O marido que se queixou tão amargamente de sua esposa é um insensato. Se as nossas leis facultam o divórcio, por que não se prevaleceu ele dos benefícios a seu alcance? Sua queixa não tem cabimento, e por isso castiguei-o com onze bastonadas. Teve a fraqueza de suportar durante onze anos uma mulher que devia ter sido, no fim de onze semanas, repudiada. Quanto ao camponês Hassan, vítima do indigno vizinho, julgo-o merecedor da nossa simpatia e proteção. Um mau vizinho cai muitas vezes sobre nós como infernal castigo, e nem sempre dispomos de meios que nos permitam evitá-lo ou contê-lo.
Os xeiques e vizires viram-se forçados a reconhecer mais uma vez que o califa Al-Mamum, de Bagdá era um soberano sábio, justo e generoso.
Bem dizia um grande filósofo:
- A Justiça é a ciência que orienta todas as virtudes!
E os famosos pensadores árabes ensinavam aos reis e aos príncipes:
A Justiça é a Verdade em ação!

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